Um artigo de opinião de Luís Barreiro, Board Member INCENTEA.
Uma falha energética, interrupção digital ou problema numa cadeia logística podem propagar-se rapidamente e afetar vários setores e geografias. O risco já não é isolado, é partilhado e sistémico.
A 28 de abril faz um ano desde o apagão que expôs uma fragilidade que muitas organizações preferiam ignorar: num mundo hiperconectado, a falha já não é exceção. É inevitável.
Durante muitos anos, a tecnologia foi associada a controlo. Sistemas mais avançados, maior automação e dados em tempo real criaram a perceção de que as organizações estavam mais preparadas para qualquer cenário. No entanto, acontecimentos recentes vieram mostrar o contrário: quanto mais conectados estamos, mais expostos ficamos a falhas em cadeia.
A resiliência deixou de ser uma questão de robustez de uma empresa para passar a depender da posição que ela ocupa num sistema altamente interdependente. Uma falha energética, uma interrupção digital ou um problema numa cadeia logística pode propagar-se rapidamente e afetar vários setores e várias geografias. O risco já não é isolado, é partilhado e sistémico.
Se por um lado a tecnologia trouxe eficiência, escala e velocidade, por outro, é também um vetor de vulnerabilidade. A dependência de plataformas digitais, infraestruturas partilhadas e fluxos contínuos de dados criou organizações mais rápidas, mas também mais frágeis.
Um ano depois, a questão não é tecnológica. É estrutural. O risco raramente está no sistema central. Está nos pontos menos visíveis: fornecedores críticos, integrações pouco visíveis ou processos que deixaram de existir em formato manual. É nesses pontos menos evidentes que a continuidade operacional pode ser comprometida.
O fator humano é determinante. Apesar da crescente automação, continuam a ser as pessoas que interpretam, decidem e respondem em momentos de crise. No entanto, a velocidade dos sistemas nem sempre é acompanhada pela formação das equipas. Quando os processos falham, são as pessoas que ditam o desfecho.
A resiliência organizacional não pode ser reduzida a tecnologia nem a planos formais de contingência. Depende da capacidade de combinar sistemas robustos com flexibilidade operacional, clareza de responsabilidades e cultura de resposta rápida. As organizações mais preparadas não são necessariamente as mais tecnológicas, mas sim aquelas que reconhecem as suas fragilidades.
Paradoxalmente, muitas organizações continuam a operar em ambientes aparentemente estáveis, o que pode levar a uma subestimação do risco. Quando a disrupção acontece, a resposta não depende apenas da infraestrutura existente, mas da capacidade de antecipar cenários e testar limites.
Um ano depois do apagão, a pergunta não é o que aconteceu. É o que mudou e, mais importante, o que continua igual.
Num mundo interligado, a disrupção é inevitável. A diferença está na forma como cada organização reage quando tudo falha.
Notícia Publicada em Sapo.pt a 29 de Abril de 2026
Veja o artigo original aqui: Sapo Notícias

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